TRADUÇÃO PARA DIVERSOS IDIOMAS

Sábado, 3 de Outubro de 2009

A MINHA VIDA DE GE – Parte 7 (A Descida ao Inferno)

 


Localização do Fúdze


 


Uma vez chegado ao Fúdze, cerca de 30 quilómetros acima de Vila Gouveia (Catandica), no início de Outubro de 1973, a vida, naquela zona ainda vivia uma certa acalmia, em termos militares, porque essa nova frente de Guerra ainda era recente. Esse mês de Outubro serviu mais para um conhecimento do terreno de operações e verificação dos estragos provocados pela avalanche dos postos avançados da Frelimo que, como referi, em artigos anteriores, eram constituídos pelos verdadeiros terroristas, com massacres de populações, raptos das mulheres mais jovens, assassínios de moçambicanos que não aderiam à Frelimo, destruição de cantinas e de outros meios de actividade económica, roubos de meios de subsistência, nomeadamente, de gado bovino, o que resultou na fuga das populações para zonas mais seguras, como os aldeamentos junto à estrada do Vandúzi-Tete.

O aldeamento do Fúdze ainda estava em construção, mas já tinha uma população considerável que, de acordo com as informações dos seus habitantes se sentia mais segura, dada a nossa presença militar e o grau de confiança aumentou, ainda mais, com a presença do Grupo Especial por ser constituído, essencialmente, por militares daquela zona.


Imagem do Aldeamento de Pandira

Dentro do plano de reconhecimento da zona envolvente, a minha primeira saída foi ao aldeamento de Pandira de onde eram naturais três militares do GE, o Vitorino, o Taculera e um outro, de cujo nome já não me recordo. Fomos muito bem recebidos pela população, com um imenso carinho e, passado pouco tempo, já havia cabritos assados na brasa, servidos numa mesa colectiva e que deu para estreitar o relacionamento com a população. Este aldeamento era protegido por milícias, os chamados “cipaios”, equipados com as velhinhas espingardas Mauser. Ouvi muitas histórias de terrorismo que coincidiam com aquilo que já sabia e que me tinham sido contadas pelos militares, durante o período de instrução, no Dondo. Foi aí, em Pandira, que soube do que se passou com a Cantina e Serração do Adriano Jorge, com a morte dos proprietários e dos seus empregados. A situação despertou-me a curiosidade de conhecer o local e dos resultados do “terrorismo” frelimista.

Em Pandira, a noite começou com uma grande fogueira, com todos, o GE e a população, sentados à sua volta e, cada um com um, com um bocado de ramo de árvore e pedaço de carne espetado na ponta, lá íamos comendo. Foi um verdadeiro manjar.

A noite passou rápida, o sono não era muito, porque a curiosidade do dia seguinte superava-o.


Foto com população do Aldeamento de Pandira 

 O dia nasceu cedo e, após um pequeno-almoço rápido, saímos de Pandira, pela picada da Macossa, com alguns elementos da população que teimaram em acompanhar-nos, e, passados poucos quilómetros deparei-me com a situação que fora alvo do terror da Frelimo. Um edifício grande, cuja cor inicial seria branca, mas quase todo ele manchado de preto, devido ao fogo do terrorismo. Acerquei-me do edifício e verifiquei os inúmeros buracos provocados pelos projécteis nas paredes, entrei e tudo estava queimado. O cheiro pestilento da morte estava por todo o lado. Deve ter sido algo de horrível. Fiquei petrificado e reparei que algumas pessoas choravam a morte de familiares seus naquele lugar do Inferno provocado pela Frelimo e entoaram alguns cânticos fúnebres em memória dos que ali foram assassinados.

Foi o meu primeiro grande choque.

Já estava mesmo no Inferno, mas o pior ainda estava para vir.

(Continua…)

 

Ovar, 3 Outubro de 2009

Álvaro Teixeira (GE)

 

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Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

MINHA VIDA DE GE – Parte 6 (O adeus ao Dondo)

 


 


(… Continuação)

E, assim, chegamos ao fim da instrução dos Grupos Especiais. Todos os dias partiam vários Grupos para os respectivos Teatros de Guerra, até que chegou a vez de o meu Grupo partir para o Fúdze. Não fazia a mínima ideia onde era isso. A única informação que possuía é que era para norte de Vila Gouveia (Catandica), na entrada da picada para a Macossa. Subimos para as Berliets e iniciamos a saída. Para trás começaram a ficar as noitadas e os fins-de-semana na belíssima cidade da Beira e o Dondo, uma pequena vila de que aprendi a gostar e o meu restaurante preferido, o Garrafão. Para trás ficou, também, a minha “pretinha” que foi, propositadamente ao CIGE, para se despedir de mim. Choramos os dois, uma cena que perdurará, para sempre na minha vida. No dia anterior já me tinha despedido da May Lung, a minha “chinoquinha” da Beira, uma miúda adorável e cuja paixão era mútua, mas este aspecto ficará para artigos posteriores.


A minha primeira farda de GE

Começamos a passar os canaviais da Açucareira de Mafambisse e recordei-me do que, uns meses antes, lá se tinha passado. Na véspera de um fim-de-semana, haviam procedido a uma desratização dos canaviais. Era habitual os recrutas, durante os dias de descanso, irem dar uma volta pelos canaviais para caçar ratos que, segundo eles, era um petisco, mas nesse fim-de-semana, os ratos tinham sido envenenados e o resultado foi trágico: várias mortes de recrutas, por envenenamento e outros que, por assistência imediata ou por intoxicação menor, conseguiram escapar. Do meu GE não morreu ninguém, porque, por felicidade, estavam de serviço nesse fatídico fim-de-semana.

Deixamos para trás Vila Machado e fizemos uma paragem, para descanso, em Vila Pery (Chimoio).

No dia seguinte, de manhã cedo, partimos para a segunda e última etapa, passamos o Vandúzi, atravessamos a ponte sobre o Púnguè e, a partir daí, foi começar a subir para Vila Gouveia (Catandica), onde voltamos a fazer uma pequena paragem, só para reabastecimento e logo de seguida, encetamos o percurso de cerca de 30 quilómetros até ao Fúdze.


Num momento de descontracção

Lá chegados, foi uma decepção. O Aquartelamento era, quase todo ele, constituído por tendas de lona e foram montadas outras para o GE.

Eu instalei-me numa cantina abandonada, com um cheiro nauseabundo, onde só se conseguia dormir com rede mosquiteira e com as janelas todas abertas.

Foi o início da minha “Descida ao Inferno”…

 

Ovar, 24 de Setembro de 2009

Álvaro Teixeira (GE)

 

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Sexta-feira, 27 de Março de 2009

Pequeno resumo da minha vida militar

Assentei praça no R.I. 5 (Caldas da Rainha) em 5/01/1972. Durante a recruta, fui chamado para prestar provas para o Curso de Oficiais, mas, por motivos políticos, recusei-me a prestar essas provas, porque a primeira prova tinha a ver com questões morais (nomeadamente, saber qual a nossa posição sobre a guerra) e, como pertencia à LUAR e tinha tido problemas com a PIDE, se fosse dizer quais eram as minhas ideias, agravaria a minha situação.


Atribuiram-me a especialidade de Atirador e fui para Tavira até ao fim de Junho de 1972.


Acabada a especialidade, fui dar instrução para o CICA 2 (Figueira da Foz) e, em Agosto fui mobilizado para Moçambique (B. Caç. 18), para onde embarquei em 6/10/1972.


Apresentei-me no B. Caç. 16 (Beira) e, em vez de ir para o B. Caç. 18 (Lourenço Marques), deram-me Guia de Marcha para a 3ª. C. Caç. do B. Caç. 20, que estava estacionada no extremo norte do Niassa, mais propriamente, em Olivença.


Estive lá até meados de Abril de 1973. Nunca dei ou ouvi qualquer tiro, porque nem nós atacávamos a FRELIMO nem eles nos atacavam a nós. Era como se houvesse um pacto de não agressão mútua. As "baldas" às operações eram muitas, pelo que vivi, sempre em paz.


Em Abril de 1973, foi a Olivença o General Alberty Correia, Secretário de Estado do Exército e, na sequência dessa visita, fui mobilizado para os GE´s, para integrar a "Operação Furacão" congeminada pelo Gen. Kaulza de Arriaga.


Na preparação dos Grupos passaram-se cenas caricatas, que irei descrever em próximos "post´s".


   Olivença - Niassa - Moçambique


                 CARTA MILITAR


No início de Outubro de 1973, fui com o GE 914 para o Fúdeze, entre Vila Gouveia e o Guro, na entrada da picada para a Macossa.


A nossa actividade consistia em operações na Serra Choa e no patrulhamento da estrada para Tete, entre Nhampassa e Nhassacara.


Na Serra Choa as operações eram muito complicadas, sofríamos muitas emboscadas e flagelações, mas nunca conseguíamos atingir os alvos, porque a floresta era muito densa e os guias enganavam-nos facilmente.


Em 20/01/1974, desloquei-me à Beira, a fim de ser sujeito a uma pequena intervenção cirúrgica no Hospital Rainha D. Amélia que ficou marcada para o dia 24.


Passei a noite com a minha namorada "chinoca" (Ai que saudades!) e às 06 horas fui à messe vestir uns calções, para dar um mergulho na praia. Quando atravessava a avenida, apareceu-me um Unimog, fora de mão, e só acordei 5 dias depois no Hospital Militar de Lourenço Marques, todo cheio de gesso e de ligaduras.


Passados 2 ou 3 dias, fui informado que tinha sido graduado em Alferes, a fim de ir comandar um GE na zona de Tete, porque o Alferes que o comandava tinha passado à disponibilidade.


É claro que nunca fui para lá, porque tinha diversas fracturas e que demorariam meses a tratar.


Em 10/05/1974, vim evacuado para o Hospital Militar da Estrela, onde fui operado ao braço esquerdo,  em Julho.


Passei os tempos revolucionários em Lisboa e, encontrava-me, muitas vezes no Café Nicola, no Rossio, com os meus grandes e saudosos amigos Palma Inácio e Fernando Oneto.


Em 24 de Setembro de 1975 passei à disponibilidade e retomei a minha actividade profissional.


Em 2005 foi-me diagnosticado o "stress de guerra", mas estou a ser acompanhado, pelo que, raramente, entro em depressão.


Sobre a minha vida pós guerra, darei conta em "post´s" posteriores.  

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